sexta-feira, 5 de março de 2010

Catarse Poética


* Parceria de Nine e M. D. Amado

Vamos pular essa parte de preliminares poéticas!
Vamos fazer a poesia bruta,
até sentir o gozo da rima penetrar a consciência em estado de transe.
Sentir ser formada a melodia errante, que canta as misérias interiores,
mascaradas em sacrilégios e apostasias.
Já que é só isso a alma humana.

Vamos cortar os pulsos dos poetas mortos
Trazer de volta o choro sofrido,
até cuspir os anseios das almas marcadas pela dor.
Sentir as palavras escorrendo pelos lábios das jovens apaixonadas,
disfarçadas de rebeldes sem causa.
Já que é só isso a alma humana.

Vamos enfileirar as covardias
E atirar sem receios,
Até que os medos escorram feito miolos no chão ensanguentado.
Sentir a animalidade saturar o peito, impetuosa e delirante,
deixando na boca o gosto de sangue.
Já que é só isso a alma humana.

Vamos beber da fonte das tristezas cantadas
Atirar as letras contras os muros de pedra,
até furar a pele dos que nele se equilibram, fugindo das decisões.
Sentir o frio que castiga o rosto, ríspido e cortante,
marcando a face do poeta nu.
Já que é só isso a alma humana.

Vamos incinerar a carne putrefata,
e engolir os vermes doentes das misérias carcomidas,
até que o cuspo imundo das verdades tampe a garganta e cale os lábios.
Sentir o silêncio impregnar os tecidos,
Unificando o corpo e a mente, enquanto o coração vira pedra.
Já que é só isso a alma humana.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A poesia de um beijo nos sonhos de um escritor


* Parceria de Glaucia Piazzi e M. D. Amado

— Dorme, meu anjo. Tomaste uma ou duas doses de vodca, e um gostoso sono apoderou-se de ti. Enquanto escrevias, teus olhos foram ficando diminutos, teus óculos embaçados e tua cabeça pesada. O devaneio do sonho confundia-se com teus personagens do papel. O vento acariciava teus grisalhos cabelos, enquanto as minhas mãos percorriam a tua macia face.

— E eu, bêbado de carinhos macios, dancei com meus monstros cruéis. Trouxe à tona os disfarces depressivos de outras épocas. E por que fiz isso? Para sorrir de frente para eles. Para dançar, rodopiar e apresentá-los a você. Ensiná-los nossa coreografia. Brindar a noite e os sorrisos maliciosos. Matá-los... de pura inveja.

— Continuei a velar teu sono e a contemplar o movimento dos teus olhos sob as pálpebras. Estavas feliz e sereno como quem encontra a amada num lindo dia de sol. Um discreto sorriso estava impresso na tua face, que me fazia imaginar quem e o que terias encontrado em teus sonhos, que volta e meia te despertavam e viravam pessoas, imagens, paisagens.

— Copiei as linhas mais bonitas de meus textos e escrevi sobre a pele de suas coxas. Li meus versos sacanas e joguei estrofes, esparramadas em suas costas. Tive em minhas mãos prosas e contos que me levaram ao toque de seus lábios. Não era mais sonho...

— Entreguei-me à doçura de tuas letras, ao sabor de tuas palavras e ao abraço de tuas deliciosas frases. Como uma pena, a sensibilidade de teus escritos deslizava sobre a minha pele o mais gostoso veneno, e cada vírgula era um arrepio que me percorria o dorso.

— Em cada frase muda que saía de seus gestos, a música dos gemidos dispersos, embebedados em nossos beijos recém descobertos. Entreabertos, os lábios cantavam suspiros que deslizavam pelos olhos semicerrados, procurando ver, na escuridão do quarto, o prazer que nascia de nossas composições profanas.

— Então adormeço embevecida por teus beijos, teus gestos. Já não me vejo longe da tua pele, igualmente enfeitada pelos meus poemas mais profundos, meus desejos mais recônditos, meus sabores mais intensos. Enquanto adormeço, junto com o vento acaricio teus cabelos... Dorme, meu anjo.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Amorte


* Parceria de Glaucia Piazzi e M. D. Amado

E a mão soltou o verbo
Deixou cair uma risada sobre o corpo inerte
Nas mãos, junto com a lâmina, o passado brilhava
Eram dois... Foram dois...
Foram sinais ignorados pela traição dos olhos
Uma gota de sangue e de lágrima
Mistura de cheiros... Suor e asco
Antes amantes, agora vítima e algoz

Retalhado o corpo, o presente assusta
A visão entorpece, o tato não mais responde
Apenas a audição dá sinais de pouca vida...

A morte consome-lhe as pontas dos dedos,
os pés, as pernas, os joelhos,
e, esvaindo-se em fluidos, o pobre cordeiro imolado
ouve como última nota a voz do carrasco ficando cada vez mais longe

A risada cabalística e o brilho de seus brancos dentes
tornando-se fosco, amarelo, vermelho, negro.

E a morte chega em segundos molhados de vermelho sujo
Cada milímetro cúbico de ar que ainda entra nos pulmões
faz a dor se espalhar em litros de visões do passado

Obscurecida pelo rosto insano que o apreciava como se fosse arte,
a visão do céu que ele nunca irá conhecer.
Nessa cadeia alimentar, o ruim é pouco pro pior. É presa fácil.
O rosto antes amado, agora é retrato da vingança do aço afiado.
E no inferno dos pecados cometidos, um dia irão se encontrar.

A dor já não mais existe, apenas vingança.
Os olhos febris e intumescidos pelo choro contido
dirão todo o necessário, sem gosto amargo do fel das palavras.
Ah, quando o outro vier, terá sua recompensa,
esperará e terá da vítima o sangue, o cheiro,
sentirá o pulso, a carne
Então, contas acertadas, admirar-se-ão pelas feições funestas.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Transforme seus demônios em arte


* Parceria de Sumaya Sarran e M. D. Amado

Sim, a arte que não vemos no dia-a-dia abismal, que nos demove dos caminhos dos sonhos, que nos envolve de sombras com a quais flertamos no íngrime limite entre o que posso e o poço que engole o que queremos.

Sim, a arte visceral que entorpece nossos sentidos ao simples toque com as pontas dos dedos, em relevos imaginários soltos no escuro de nossa vontade perdida, a espera do ponto final do nosso desespero.

Desespero é deixar de esperar... Perdido e envolvido, cego ou morto... Deixar de esperar, de ser seguido pelas sombras, dançar com elas em seu ritmo devasso e hipnótico... Talvez eu a queira muito mais do que ela... Deixar de esperar ser engolido pelo poço, eu posso.

No fundo do mais profundo, sufocado pela esperança negra que se veste de ilusão. Esperar... Esperar o que não se espera, o que não se regenera. Dançar de braços dados com essa arte sombria de pés descalços... Na beira... Na beira do poço, ela pode fazer arte, fazer parte...

Na beira do poço, eu posso ver... Sou poeira, daquelas da estrada, de tantos que já passaram desde a escuridão dos tempos. Veja a dança, da sombra, da poeira e da fumaça... Sim no poço tem fogo, fogo de morte de arte de ressurreição.

De recomeço. Da lama, do sangue e da lágrima... Misture tudo e use como tinta. Abstrato sobre a tela dos dias que se foram. Agora são rabiscos a serem vistos com outros olhos. Com a perspectiva única e inigualável da arte de ver a arte.

A arte que não vemos no dia-a-dia abismal, que nos demove dos caminhos dos sonhos e nos injeta no que realmente somos, dolorosa e cerimoniosamente como a fluidez da alma que nos escorre, que se desprende dos invólucros em que fomos depositados...

Saímos do poço, somos o fogo que engole as sombras que flertam no limite do fim, as sombras, nós também somos.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Um poema em seus lábios


* Parceria de Nine e M. D. Amado

Eu não consigo lembrar como se inicia um poema.
A tristeza bloqueia a dialética,
e torna a visão turva.
O coração só clama por consolo,
e o meu corpo por um poema que venha acalentar os desesperos.

Preciso de algo menos verso e mais inverso, meio avesso.
Como comida mexida e requentada,
só para disfarçar o vazio.
Quero letras vestidas de branco em um fundo preto,
e os meus olhos delirando em sombras do que preciso ver.

Preciso de um poema dinâmico, sem inícios ou rimas.
Só com contexto extraviado, osbcurecido e calado,
Como beijo escrito em sânscrito antigo.
Quero o acaso a pintar metáforas,
tatuando em teus gestos, as pálidas letras do meu verso.

Eu queria um poema sem cordas, sem tons, nem mágoas.
Como a flor sem cheiro, mas que também não tem espinhos,
e tão pouco possui as cores da rotina.
Queria cantar uma nova toada, um novo dueto de vozes caladas,
e os meus ouvidos imaginando a poesia em seus lábios.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Pedro


* Parceria de Regina Castro e M. D. Amado

O sangue que escorria era real. Sua pele empalidecida pelo luar, olhos brilhantes... Nas mãos o sabor frio da crueldade. A família jazia naquela casa. De fora Pedro mirava o vazio... Machado nas mãos e nenhuma palavra... Na mente um senso de liberdade. Tinha se livrado de tudo que o segurava numa vida medíocre. Além do vazio, a perda, mas que agora já não se fazia importante.

O sangue quente escorreu, Pedro olhou as mãos rubras e sorriu.

O sangue sob as unhas e a culpa sob o manto da noite. Apenas os insetos como testemunhas. Não sabia como respirar aquele ar úmido sem sentir o cheiro de ferrugem e sangue. Queria poder separar as coisas...

Um olhar frio e despreocupado para a porta da casa. Um vulto...

Pedro sorriu displicente, acreditando que sua mente queria lhe pregar alguma peça. Outro vulto...

O canto da boca desfez seu sorriso e desenhou seriedade. A mão calejada apertou com mais força o machado.

Alguém sobrevivera.

Ainda estava ali, admirando tudo que tinha feito. Estava satisfeito. Mas depois dos vultos, o sangue voltou a pulsar em suas veias com força total. Se antes Pedro havia se acalmado após tanta fúria, agora sua maldade pulsava mais forte a cada segundo.

O vulto novamente...

Mas desta vez parou na porta e o encarou. Era sua esposa, que com um sorriso o chamou. No escuro somente o brilho dos olhos. Algo fugaz, algo que o excitou. Não saberia explicar. Deu os primeiros passos e ela continuava alí, parada. A camisola ao vento. Continuou caminhando e agora via um sorriso. Não o sorriso de antes, e sim algo novo, frio... Mas desejoso.

Pedro chegou aos degraus que o separava de sua esposa. Perto de entrar, ela sumiu na penumbra e ele escutou seu nome sendo graciosamente chamado. Melódico... Aquele som parecia hipnotizá-lo. Ele entrou sem pensar, sem defesa, com o machado ainda nas mãos, sendo arrastado pelo piso molhado de sangue.

Sentiu a respiração suave de sua esposa próxima de seu rosto. O toque ainda morno das mãos castigadas pelas tarefas diárias no pequeno sítio da família. Pedro fechou os olhos e sentiu novamente o afeto e o carinho que o deixaram perdidamente apaixonado por aquela mulher, quando ainda eram adolescentes. Um toque molhado nos lábios... Sua respiração ofegante.

Flashes de sua vida conjugal. Os filhos brincando no velho campinho... Os filhos mortos. As risadinhas deliciosas dos pequenos... O grito estridente no corte da lâmina. Pedro agora era anjo e demônio. Era todo vermelho.

Nas mãos suaves de Carolina, o machado erguido no alto da cabeça.

Pedro. A cabeça partida ao meio...

Carolina morta no quarto ao lado.

A culpa disfarçada de sereno foi quem o ludibriou. A morte veio pessoalmente lhe buscar. O combinado era matar a todos e depois dar fim a própria vida. Mas Pedro achou que a morte não gostava do vento frio da noite.

Pensou que podia calar aquela voz em sua mente.

Ah, Pedro...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Teus encantos quase nus



* Parceria de Suzy M Hekamiah e M. D. Amado

Me desfiz em pecados nas curvas dos teus ombros
A entrega foi cúmplice da vontade de tocar sua pele
Me vi emaranhado em teus cabelos dourados
Vestindo a pele de um cordeiro insano...
Com sede de teu pescoço
Escorreguei pela alça de teu vestido
Empunhando versos de longa data
O desejo pelo sangue que escorreu até o peito
Me vi pendurado eu teus brincos
Com fome do teu olhar
As mãos queriam o toque em teu rosto
Mas a língua ainda queria beber
Amei-te impassivelmente durante esse tempo
Durante os segundos em que a quis imortal
Com ódio do meu prazer


Então, no fim de tudo você percebeu as lástimas no tempo
A loucura vinda de uma imagem não revelou o veneno da brincadeira
Eu quis esperar, mas...
Não vamos aguentar beber dessa sedução para sempre
Vamos caminhar no ar
As espadas de um anjo
A súplica vinda dos nossos medos
Apenas uma imagem para amar até o fim
Quebre os retratos se não aguentar
Sem chance de esperar a verdade
No meio do tempo para provar para o coração
A loucura vinda de suas palavras
Eu continuo brincando
Feito criança esquecida
No cemitério cheio de almas
Feito princesa esquecida
Eu continuo ver-lhe chegar
Sua afeição demonstra medo
Medo de quebrar-se com os sentimentos que jurou
E por um momento tudo estás em nossas mãos
Mas o tempo traiçoeiro leva de nós as poucas tentativas de eternizar
Jure antes que seja tarde
Mas não finja
Não minta
Por mais que seja humano não brinque de ferir
Por algumas horas eu esperarei e até levarei sua alma com meu coração
Mas apenas por um instante poderei lembrar de suas palavras
Antes que eu revele a fera que depende de seu sangue