quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sob as Chamas


* parceria de Nine e M. D. Amado

O interior rumina as palavras,
como partes de emoções desgastadas pelo alter ego.
Não há rimas que possam embalar os sentimentos perdidos,
nem que venham realçar qualquer verso insosso moldado ao acaso.

As letras escorrem pelos póros,
como a transpiração do corpo já cansado de reter sofrimentos.
Não há prosas nem crônicas capazes de contar nossa história,
nem que tenham a vivacidade de nossas promessas trocadas.

As orações desprendem-se da pele,
como o fétido perfume do corpo em movimento.
Ah, não há sentidos que consigam preencher os textos,
nem que convençam a mente das verdades expostas pelo tempo.

Os beijos em despedida ferem nossos lábios,
como a pele descolando de uma superfície gelada.
Não há teorias que expliquem um adeus tão arrependido,
nem que ensinem como recitar os poemas de nossas línguas.

Sobre os altares da inquisição do pensamento,
os corpos, marcados pelas hábeis palavras nunca ditas,
ardem sob as labaredas do fogo santo.

Não mais beijos, que venham assolar a consciência,
não mais dores, não mais fatos!

A memória rubra, em pira enigmática,
precede as vontades, e incendeia as conexões das lembranças.
Como fumaça, os poemas ascendem aos céus, livres.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Nosso pecado em gotas de suor

* parceria de Carolina Mancini e M. D. Amado

Na palidez pintada em seu rosto de menina
eu esboço tons aproximados de um vermelho escuro
Um veio de dourado que sai de seus olhos castanhos
imprime o contraste dos sentimentos em conflito

Somos água e fogo sob os lençóis na sua cama,
jogados de qualquer jeito, cobrindo nossos desejos
Amor e sexo, pintados com as pontas das suas unhas
rasgando não só a pele, mas a razão de estarmos ali

Ventanias inteiras saem de seus lábios entreabertos
Levianos sorrisos clareiam juvenis atos desmedidos
azulando as paredes desprovidas de inseguranças

diante do balouçar dançante das cortinas brancas

E ficam ao chão os livros, as tintas, as máscaras
As verdades rejuvenescem ao lado dos óculos caídos

e os flancos se contorcem como um riso longo

ecoando através das horas languidas do relógio

Seus cabelos vermelhos grudados no corpo suado
permanecem em cores vivas em minha lembrança
As flores secas que joguei sobre seu orgasmo
nos fizeram gargalhar a culpa de sermos um só

O movimento dos seus lábios ao dizer insanidades
e algumas bobagens ao som de nossos gemidos...
O sorriso de moleca e o olhar de cortesã
me engolindo aos poucos, colando nossos corpos em pecado

Nas esquecidas mesuras eu refaço as suas verdades/mentiras
tão sedutoras e concretas como os arranhões dos seus pelos
na pele fina de meu pescoço e eu lhe guardo na sensação
dos quadris ondulantes embriagados pelo seu cheiro

Ainda rio-me dos seus caprichos suados cheios de desejos
E de cada desafiante novo jogo de prazer e ostentação
Brincadeiras suadas que diante os seios pressionados contra seu peito
e a razão pelo corpo, de libidinagem, venceram a ambos.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Nesses dias sem você


* Parceria de Nine e M. D. Amado

E nesses dias sem você, senti falta de tuas letras jogadas e da saudade relida em tuas estrofes encantadoras. Senti falta da poetisa menina e dos olhos brilhantes que nunca vi. Não tive suas pequenas risadas nas conversas amenas e tão agradáveis. Não tive você nas minhas noites de poesias trancadas.

Nesse dias sem você, senti falta das frases tão elegantes e das palavras tão bem colocadas nos textos que pensamos juntos. Senti falta de pensar com você. Nesses dias em que você não estava, me fez a falta a sua arte, a sua prosa e sua presença de cabelos cacheados.

Fez falta, encontrar o distante ombro amigo, e poder chorar, melosamente, os poemas inusitados. Dizer sem medo, qualquer verso, sem pensar antes, assim mesmo, mal feitos. Provocam tantos sentimentos, que não precisam ser lapidados, lindas verdades brilhantes!

Rir dos medos, despedir com beijos escritos. Desejar bons sonhos, compartilhar dores. Quem mais neste mundo, sambaria o carnaval das estrelas, e se despediria sorrindo, querendo correr atrás de um trio intergaláctico? Os dedos ligeiros feito pés, no compasso certinho da rima instantânea caminham zilhões de quilômetros, para entregar as palavras mais simples: samba enredo das canções silenciosas!

* texto escrito em maio de 2010




segunda-feira, 14 de junho de 2010

Escrevemos

* Parceria de Débora Andrade e M. D. Amado

Queria escrever sobre portas abertas, embora eu veja todas trancadas o tempo todo.

Porque eu queria sair sentindo a brisa da liberdade sobre a pele, embora eu queira vendavais e tempestades para agarrar minhas cores.


Na verdade, queria escrever uma fórmula mágica que me fizesse encontrar as mãos que sempre procurei. As mãos que ainda não encontrei.
Falar menos de amor.
Falar menos de tristezas e decepções.
Falar menos de esperança.
Falar menos de mim.
Pensar menos em falar.
Falar menos sobre pensar.

Queria escrever sobre corpos libertos, embora eu veja amores vestidos de posse.
Porque eu queria amar teus olhos e tua vida, embora eu queira que você viva apenas a minha.
Na verdade, queria fazer parte de você e viver sob tua pele, sentir teus prazeres. O prazer que ainda não encontrei.

Queria ser todas as tuas letras.
E ser tuas vírgulas, pontuando os espaços entre nós, para que fossem sempre breves.
Escrever... Sobre você e sobre mim em novas dimensões.

Eu queria escrever...
Mas a página permanece em branco, senão fossem estes meus rabiscos sem nenhum sentido, eu não teria nem ao menos passado diante dos teus olhos. Não teria feito as pontas dos teus dedos passarem sobre minhas páginas, sedentas por uma história nossa.

Eu não sei sobre pontos finais. Portanto, melhor que saibas que esta história ainda não chegou ao fim, a menos que você tenha alguma exclamação nas mangas.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Nós

* Parceria de Nine e M. D. Amado

Às vezes, quero perpetuar os minutos, paralisar o tempo que tiver nas mãos! Arrancar as pilhas de todos os relógios do mundo, e destruir a contagem dos segundos,pois são eles a base do meu lamento.

Quero tocar no seu rosto, sem tempo de parar. Sem pressa para piscar os olhos e assim não te perder dentro de mim. Encher o peito de teu cheiro suave, como se fosse o ultimo ar respirável da terra. Esperar teu tempo, teu relógio sem pressa, que me aprisiona numa realidade demorada nas verdades do teu olhar, no brilho e nas cores do teu sorriso que me embriaga e contagia meus poros.

Esperar o toque de suas mãos macias, percorrendo meu corpo, pintando-o com tuas próprias cores. E poder, no dinamismo das cores escolhidas por ti, desconfigurar-me como matéria, e transcender para o teu desejo. Agigantar a alma, para poder te alcançar sem esticar os pés como bailarina.

Tocar teus lábios com a intensidade dos ventos fortes de dias frios. E esperar desse beijo a música que sai do nosso peito, o fôlego que vai nos faltar e o desespero de querermos ser apenas um.

As mãos que se encontram, trançam e prendem... O corpo pedindo as mudas de roupas ao vento. Vontade uníssona, de ser um amplo corpo de tantos braços e pernas, capaz de caminhar sem auxílio de caminho, seguindo apenas a intuição. Ser levados pela contagem voluntariosa do tempo, que não aguarda o fim do desejo, para amolecer as certezas, e semear medos.

Mas, munidos da autonomia dos peitos libertinos, deixar escorrer pelas pernas os pensamentos restringentes, dando ouvidos apenas às inconsequências que insinuam-se aos fatos. E cobrir os espaços deixados pela poesia dos movimentos de nosso corpo, com um gozo marcado pelas pálpebras pesadas, de marcações desenhadas pelo suor escorrido de teus cabelos encaracolados, como tatuagens de feridas abertas com facas.