
* Parceria de Luciana Fátima e M. D. Amado
Estava desconfiada de que alguém havia descoberto sua senha. Não sabia exatamente de onde vinha essa suspeita, pois, aparentemente, tudo estava normal em sua caixa de mensagens. No entanto, a estranha sensação de ser observada cada vez que acessava a internet estava ficando insuportável.
Costumava excluir os spams e comunicar-se com os amigos entre o final da noite e o começo da madrugada. Talvez fosse o horário noctâmbulo que a fizesse sentir-se estranha cada vez que abria a tela do computador. Isso era realmente preocupante. Seria o início de mais uma crise de esquizofrenia?
O dinheiro da herança havia acabado e isso significava o fim das sessões de terapia. Tudo bem. A psicóloga dissera que ela havia conseguido superar a trágica morte dos pais e do noivo. Mas, às vezes, ainda se questionava como teria escapado daquele acidente; por que teria de viver sozinha neste mundo que a enchia de temores; como faria para reconstruir sua vida... E era justamente durante as insones madrugadas que os sentia mais presente do que nunca.
Quando, ao alvorecer, ela ia se deitar, ficava se perguntando porque nos últimos dias vinha demonstrando tanto interesse por sites que ela nunca dera muita atenção, como os sites de literatura e de música. Passava horas lendo poesias, contos e estudando a vida de compositores clássicos. Nunca tivera paciência para ler artigos muito grandes na internet e, no entanto, nas últimas noites esse era seu passatempo preferido. Chegou à conclusão de que era movida pela emoção e pela saudade daqueles que se foram, pois, eram ídolos de cada uma daquelas pessoas, aqueles que ela visitava a cada noite em seu computador.
Até então, isso não tinha se tornado um grande problema, mas, ela passou a dormir apenas uma ou duas horas por noite. Não conseguia parar de ler, pesquisar, estudar e ouvir músicas durante toda a madrugada. Já não se concentrava em suas aulas da faculdade e tampouco nos estudos em grupo. Não sentia fome e quase não se alimentava mais. Só o fazia porque, conscientemente, sabia que poderia adoecer, caso parasse de comer totalmente.
Os amigos tentavam, em vão, ajudá-la a reagir. Achavam que tudo aquilo tinha relação com a perda das pessoas amadas. E a cada tentativa de ajuda, ela se afastava. Parecia incomodada com a presença daqueles que só queriam o seu bem. No final do mês de outubro, ela resolveu trancar a matrícula. Não estava mais suportando a convivência com outras pessoas. Passou a ficar dentro de casa, o tempo todo na internet.
Em uma dessas incursões pelos sites obscuros que preenchiam toda sua vida agora, ela lia um artigo sobre a Sociedade Epicureia. A música suave, composta séculos atrás, servia como perfeita trilha sonora àquela pesquisa. Um interesse febril apossou-se de seu ser quando descobriu algumas imagens dos rituais orgiásticos e macabros realizados pelos participantes do grupo.
Utilizava todas as ferramentas disponíveis em seu computador para recortar e ampliar uma das figuras, na tentativa de ver melhor as pessoas que estavam ao fundo, parados frente a um grandioso mausoléu. A legenda dizia que a cena passara-se no dia dos mortos. O mesmo dia em que se encontrava hoje. O dia em que, segundo a lenda, os mortos tinham autorização para visitar seus parentes!
Depois de muito brigar com o Photoshop, finalmente conseguira maior definição. Não havia mais dúvida. Eram eles! Seus pais, com trajes muito antigos, e seu noivo, em um gesto convidativo, a mão esticada em sua direção. A imagem parecia tão real que nem pensou quando moveu os dedos para tocar a tela do computador, tentando responder ao chamado daqueles a quem tanto amara.
A mão, gelada ao primeiro toque, agarrou firmemente a sua, quando viu que não mais existiam barreiras a separá-los. Ela olhou para suas vestes transformadas, para seu tom de pele em preto e branco, para o cemitério onde se encontrava. Finalmente ficariam todos juntos novamente!
Costumava excluir os spams e comunicar-se com os amigos entre o final da noite e o começo da madrugada. Talvez fosse o horário noctâmbulo que a fizesse sentir-se estranha cada vez que abria a tela do computador. Isso era realmente preocupante. Seria o início de mais uma crise de esquizofrenia?
O dinheiro da herança havia acabado e isso significava o fim das sessões de terapia. Tudo bem. A psicóloga dissera que ela havia conseguido superar a trágica morte dos pais e do noivo. Mas, às vezes, ainda se questionava como teria escapado daquele acidente; por que teria de viver sozinha neste mundo que a enchia de temores; como faria para reconstruir sua vida... E era justamente durante as insones madrugadas que os sentia mais presente do que nunca.
Quando, ao alvorecer, ela ia se deitar, ficava se perguntando porque nos últimos dias vinha demonstrando tanto interesse por sites que ela nunca dera muita atenção, como os sites de literatura e de música. Passava horas lendo poesias, contos e estudando a vida de compositores clássicos. Nunca tivera paciência para ler artigos muito grandes na internet e, no entanto, nas últimas noites esse era seu passatempo preferido. Chegou à conclusão de que era movida pela emoção e pela saudade daqueles que se foram, pois, eram ídolos de cada uma daquelas pessoas, aqueles que ela visitava a cada noite em seu computador.
Até então, isso não tinha se tornado um grande problema, mas, ela passou a dormir apenas uma ou duas horas por noite. Não conseguia parar de ler, pesquisar, estudar e ouvir músicas durante toda a madrugada. Já não se concentrava em suas aulas da faculdade e tampouco nos estudos em grupo. Não sentia fome e quase não se alimentava mais. Só o fazia porque, conscientemente, sabia que poderia adoecer, caso parasse de comer totalmente.
Os amigos tentavam, em vão, ajudá-la a reagir. Achavam que tudo aquilo tinha relação com a perda das pessoas amadas. E a cada tentativa de ajuda, ela se afastava. Parecia incomodada com a presença daqueles que só queriam o seu bem. No final do mês de outubro, ela resolveu trancar a matrícula. Não estava mais suportando a convivência com outras pessoas. Passou a ficar dentro de casa, o tempo todo na internet.
Em uma dessas incursões pelos sites obscuros que preenchiam toda sua vida agora, ela lia um artigo sobre a Sociedade Epicureia. A música suave, composta séculos atrás, servia como perfeita trilha sonora àquela pesquisa. Um interesse febril apossou-se de seu ser quando descobriu algumas imagens dos rituais orgiásticos e macabros realizados pelos participantes do grupo.
Utilizava todas as ferramentas disponíveis em seu computador para recortar e ampliar uma das figuras, na tentativa de ver melhor as pessoas que estavam ao fundo, parados frente a um grandioso mausoléu. A legenda dizia que a cena passara-se no dia dos mortos. O mesmo dia em que se encontrava hoje. O dia em que, segundo a lenda, os mortos tinham autorização para visitar seus parentes!
Depois de muito brigar com o Photoshop, finalmente conseguira maior definição. Não havia mais dúvida. Eram eles! Seus pais, com trajes muito antigos, e seu noivo, em um gesto convidativo, a mão esticada em sua direção. A imagem parecia tão real que nem pensou quando moveu os dedos para tocar a tela do computador, tentando responder ao chamado daqueles a quem tanto amara.
A mão, gelada ao primeiro toque, agarrou firmemente a sua, quando viu que não mais existiam barreiras a separá-los. Ela olhou para suas vestes transformadas, para seu tom de pele em preto e branco, para o cemitério onde se encontrava. Finalmente ficariam todos juntos novamente!

6 comentários:
Muito macabro e sombrio... me fez lembrar de quando comecei a escrever, quando para esquecer alguns problemas pessoais eu também me afoguei na leitura...
Que barreira existe entre o lado de lá e o de cá? E se existe, será física ou imaginária? Criamos nossas ilusões ou elas se apoderam de nós em momentos de fraqueza e solidão? Somos matéria ou não?
Parabéns aos dois!!!
Oie!!!!
Lu, adorei o texto.
A você, M.D, parabéns e prazer, sou amiga da Luciana.
Abraços,
Bianca
Olá Luciana!!Amei o texto, parabéns...está divino...na verdade, não encontro palavras para descrever o que ele me fez sentir, mas te garanto que me encantou. Parabéns mais uma vez...à voçê e seu amigo..^Kisses^
Maravilhoso, Luciana. Encontrei algo Kardecista nesse texto - contato com os espíritos, vidas passadas, reencarnação - mesmo que atravéz da internet. O universo é formado pelos princípios material e espiritual e é muito sutil o que nos separa do mundo invisível. Parabéns!
Correção: através.
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